Os tumores peritoneais estão entre os quadros mais desafiadores da oncologia abdominal. Eles podem surgir diretamente no peritônio ou chegar até ele a partir de outros tumores do corpo, especialmente ovário, cólon, estômago e apêndice. Durante muitos anos, a medicina dispunha de poucas opções eficazes para lidar com esse tipo de doença, principalmente devido à facilidade com que as células se espalham pela cavidade abdominal. Mas hoje esse cenário é completamente diferente. A evolução das técnicas cirúrgicas, o desenvolvimento de tratamentos combinados e a chegada de terapias regionais como a HIPEC transformaram a perspectiva de muitos pacientes.
Em 2025, no congresso internacional de tumores peritoneais realizado em Barcelona, especialistas do mundo todo se reuniram para discutir o futuro desse campo. A participação do Dr. Fábio Lopes reforçou a importância da atualização contínua e do protagonismo brasileiro no avanço das terapias que vêm proporcionando resultados cada vez mais promissores.
Entendendo o peritônio e os tipos de tumores que o acometem
O peritônio é uma membrana fina que reveste internamente a cavidade abdominal e recobre diversos órgãos. Ele funciona como um protetor, um facilitador dos movimentos naturais dos órgãos e um participante da defesa imunológica local. Assim como qualquer tecido do corpo, o peritônio pode desenvolver doenças tumorais.
Quando os tumores se originam diretamente nessa membrana, chamamos de tumores primários. Eles são menos frequentes e incluem condições como mesotelioma peritoneal maligno, tumor seroso primário e alguns quadros de pseudomixoma peritoneal, que, apesar de frequentemente associados ao apêndice, se manifestam amplamente no peritônio. Os sintomas costumam aparecer de forma insidiosa, com distensão abdominal, acúmulo de líquido e alterações no trânsito intestinal.
Os tumores secundários, por outro lado, são bem mais comuns. Eles surgem quando um câncer de outro órgão se dissemina para o peritônio. O ovário, o intestino grosso e o estômago estão entre as origens mais frequentes. Nesses casos, pequenas células tumorais se espalham pela cavidade abdominal e se implantam em várias regiões, o que torna o diagnóstico e o tratamento mais complexos.
Por que os tumores peritoneais são tão difíceis de tratar
A cavidade abdominal é extensa, cheia de recessos e superfícies irregulares. As células malignas conseguem se deslocar com facilidade, se depositar em diferentes locais e formar implantes tumorais microscópicos que muitas vezes não aparecem nos exames de imagem. Além disso, os sintomas costumam surgir tardiamente, e a resposta à quimioterapia convencional pode ser limitada, já que o medicamento circula pela corrente sanguínea e nem sempre atinge o peritônio com intensidade suficiente.
Esses fatores fizeram com que, por décadas, as opções terapêuticas fossem restritas. No entanto, o avanço da cirurgia oncológica e das terapias direcionadas permitiu que novas estratégias surgissem – e hoje os tumores peritoneais contam com abordagens altamente especializadas.
Cirurgia citorredutora: a base do tratamento moderno
Um dos maiores avanços nessa área é a cirurgia citorredutora. Esse procedimento tem como objetivo remover todo o tumor visível na cavidade abdominal, incluindo pequenos implantes espalhados pelo peritônio ou aderidos a órgãos. Em muitos casos, essa cirurgia exige a retirada de porções do peritônio, de segmentos intestinais ou de outros órgãos que tenham sido afetados. É um procedimento minucioso, desenvolvido para reduzir a carga tumoral ao máximo e permitir que outras terapias tenham maior eficácia.
HIPEC: o marco que mudou o tratamento dos tumores peritoneais
Após a retirada do tumor visível, entra em cena uma das técnicas mais revolucionárias da oncologia abdominal atual: a quimioterapia intraperitoneal hipertérmica, conhecida como HIPEC. Nessa abordagem, a cavidade abdominal é preenchida com uma solução de quimioterapia aquecida, que circula por um período determinado. O calor potencializa a ação das drogas e facilita sua penetração nos tecidos, atingindo células microscópicas que não podem ser vistas ou retiradas durante a cirurgia.
A HIPEC trouxe resultados especialmente expressivos em pacientes com pseudomixoma peritoneal, mesotelioma peritoneal e metástases de tumores colorretais e ovarianos. A técnica ganhou espaço internacional e foi tema de inúmeros debates no congresso de Barcelona em 2026, onde novas combinações de medicamentos, diferentes tempos de perfusão e protocolos aprimorados foram apresentados e discutidos.
O papel das terapias sistêmicas no tratamento integrado
Mesmo com o avanço da cirurgia e da HIPEC, muitos pacientes se beneficiam de tratamentos sistêmicos complementares. A quimioterapia convencional continua importante em diversas situações, mas hoje sua eficácia pode ser potencializada pelo uso de terapias alvo-moleculares que atacam alterações genéticas específicas dos tumores. A imunoterapia também tem ganhado espaço para determinados perfis moleculares, mostrando resultados promissores em casos selecionados.
A tendência atual é integrar essas estratégias de maneira personalizada, de acordo com as características de cada paciente e de cada tumor. Esse modelo de medicina de precisão foi um dos focos centrais das discussões internacionais recentes.
Novas abordagens regionais e o futuro do tratamento
O desenvolvimento de terapias regionais para tumores peritoneais não se limita à HIPEC. Técnicas como a PIPAC, que utiliza quimioterapia em forma de aerossol pressurizado dentro da cavidade abdominal, estão em estudo e mostram resultados preliminares encorajadores, especialmente em casos nos quais a cirurgia não é possível. A combinação entre terapias invasivas e medicamentos modernos também vem sendo explorada em centros internacionais.
Além disso, há uma tendência crescente em unir análise genética, tecnologias cirúrgicas avançadas, inteligência artificial e protocolos multidisciplinares para oferecer tratamentos mais seguros e eficazes. A expectativa é que, nos próximos anos, os tumores peritoneais possam ser diagnosticados mais cedo e tratados com intervenções cada vez mais precisas.
Conclusão: um horizonte cada vez mais promissor
Os tumores peritoneais, que já foram considerados quase intratáveis, hoje contam com opções modernas e resultados muito mais animadores. A cirurgia citorredutora, a HIPEC, as terapias sistêmicas direcionadas e as novas abordagens regionais representam um avanço significativo na luta contra essas doenças.
A participação do Dr. Fábio Lopes no congresso de Barcelona em 2026 reforça esse compromisso com o que há de mais atualizado no mundo e com a oferta de tratamentos sólidos, embasados e modernos para os pacientes. O futuro dos tumores peritoneais é promissor, e cada avanço representa uma nova oportunidade de ampliar a qualidade de vida e o prognóstico de quem enfrenta essa condição.

