Nos últimos anos, a medicina oncológica avançou de forma significativa na abordagem dos tumores que se espalham pelo peritônio, como nos cânceres de ovário, cólon, apêndice, estômago e outros tumores peritoneais. Duas tecnologias ganharam destaque nesse cenário: a HIPEC (Quimioterapia Intraperitoneal Hipertérmica) e a PIPAC (Quimioterapia Intraperitoneal Pressurizada com Aerossol).
Embora ambas tenham o mesmo objetivo, controlar o câncer dentro da cavidade abdominal, elas são aplicadas em situações muito diferentes. Para entender cada uma delas, é preciso conhecer seus mecanismos, indicações e benefícios.
O que é a HIPEC?
A HIPEC é um tratamento realizado durante uma cirurgia aberta, após a remoção de todos os tumores visíveis na cavidade abdominal. A lógica desse procedimento é simples: mesmo quando o cirurgião retira toda a doença perceptível, ainda podem restar células microscópicas que não são detectáveis a olho nu. A quimioterapia aquecida vem justamente para eliminar esse resíduo invisível.
A cirurgia começa com a citorredução, etapa na qual o cirurgião remove manualmente o máximo possível de tumor. Isso pode envolver a retirada de múltiplos órgãos ou partes deles, dependendo da extensão da doença. Quando toda a doença visível é removida, inicia-se a fase HIPEC.
Durante a HIPEC, o abdômen é preenchido por uma solução líquida contendo quimioterápicos aquecidos entre 41°C e 43°C. A solução circula continuamente dentro da cavidade abdominal por 30 a 90 minutos (podendo chegar a 120 minutos, dependendo do protocolo). O calor potencializa a ação da quimioterapia e aumenta a penetração do medicamento no tecido.
O objetivo principal da HIPEC é reduzir drasticamente o risco de recidiva local e oferecer ao paciente uma chance mais duradoura de controle ou até cura da doença.
O que é a PIPAC?
A PIPAC é um procedimento mais novo, minimamente invasivo, realizado por videolaparoscopia. Ao contrário da HIPEC, ela não exige remoção completa do tumor e não é feita durante uma grande cirurgia.
Durante o procedimento, o cirurgião introduz um aparelho especial na cavidade abdominal que transforma os medicamentos quimioterápicos em uma névoa pressurizada, como um aerosol. Essa névoa se espalha de maneira uniforme pelo perítono, permitindo que a quimioterapia alcance áreas que seriam de difícil acesso apenas com líquido.
A PIPAC é especialmente indicada quando:
- O paciente não pode passar por uma cirurgia grande;
- A doença está muito disseminada;
- O propósito do tratamento é controle, e não remoção cirúrgica completa;
- O paciente já realizou outras terapias, mas precisa de um método adicional para reduzir o avanço do câncer.
Um dos maiores benefícios da PIPAC é que ela é repetível. Geralmente, o paciente pode realizar o procedimento a cada 6 a 8 semanas, dependendo da resposta tumoral e das condições clínicas. Isso permite acompanhar a evolução do tratamento e ajustar estratégias de forma contínua.
HIPEC x PIPAC: qual é a diferença essencial?
Embora ambas tratem o câncer dentro do abdômen, HIPEC e PIPAC têm propostas terapêuticas distintas.
HIPEC: tratamento aplicado após uma cirurgia maior
A HIPEC depende de uma cirurgia que remove a maior parte da doença visível. É indicada para pacientes candidatos à citorredução completa ou quase completa. Sua intenção é atingir células residuais invisíveis e maximizar o efeito da cirurgia.
PIPAC: tratamento menos invasivo, repetível e voltado ao controle tumoral
A PIPAC não requer remoção completa do tumor. Em vez disso, ela busca reduzir a carga tumoral e controlar o avanço da doença quando a cirurgia maior não é viável. A quimioterapia pressurizada se distribui de maneira homogênea, o que aumenta sua absorção mesmo em superfícies peritoneais doentes.
HIPEC é melhor do que PIPAC? Não. Elas são diferentes.
Nenhuma das duas técnicas substitui a outra. Na verdade, elas são complementares, e a escolha depende do estágio da doença, da saúde geral do paciente e das recomendações da equipe multidisciplinar.
A HIPEC é preferida quando existe chance de remover todo tumor visível e oferecer um tratamento com intenção potencialmente curativa. Já a PIPAC é usada em casos em que o câncer está avançado, é disseminado ou quando o paciente não pode se submeter a cirurgias longas e complexas.
Em muitos centros especializados, PIPAC e HIPEC fazem parte de uma mesma linha de cuidado, sendo aplicadas em momentos diferentes da jornada do paciente.
Quando cada técnica é indicada?
HIPEC geralmente é indicada para:
- Tumores primários ou metastáticos limitados ao peritônio
- Câncer colorretal com carcinomatose peritoneal selecionada
- Câncer de ovário avançado
- Tumor de apêndice
- Mesotelioma peritoneal
- Situações em que a citorredução completa é possível
PIPAC geralmente é indicada para:
- Pacientes que não são candidatos à cirurgia extensa
- Doença peritoneal muito disseminada
- Recaídas após tratamentos prévios
- Controle de sintomas e estabilização do tumor
- Combinação com quimioterapia sistêmica
Como o paciente sente a diferença na prática?
Do ponto de vista do paciente, as diferenças são claras:
HIPEC costuma envolver internação em UTI, recuperação mais longa e um procedimento de grande porte, porém com potencial de maior impacto a longo prazo, quando a citorredução é completa.
PIPAC geralmente apresenta recuperação rápida, internação curta (às vezes de um único dia) e poucos dias de desconforto. Como o procedimento é menos agressivo, é possível repeti-lo várias vezes.
Avanços que mudam vidas
Tanto a HIPEC quanto a PIPAC representam um avanço importante no tratamento de tumores peritoneais. Elas oferecem alternativas quando antes as opções eram limitadas e permitem abordagens mais personalizadas e eficazes. A decisão sobre qual técnica utilizar é sempre feita com base em critérios clínicos, extensão da doença e objetivos terapêuticos.
O mais importante é que ambas refletem um novo momento da oncologia: tratamentos mais direcionados, mais precisos e que levam em consideração não apenas o tumor, mas a qualidade de vida de cada paciente.

